Sete Lagoas entra em alerta com possível aumento de tarifa dos EUA sobre ferro-gusa
Sexta-feira, 03 de junho de 2026. 14:49
Setor que responde por US$ 1 bilhão das exportações mineiras pode ver imposto saltar para 35%; governador Mateus Simões cobra responsabilidade do governo federal
A indústria mineira de ferro-gusa, está diante de uma nova e severa ameaça. Se confirmada a proposta do governo norte-americano de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, o imposto total sobre o gusa mineiro saltará para 35%. O produto, essencial para a siderurgia internacional, é o segundo item mais exportado de Minas Gerais para os EUA, atrás apenas do café, movimentando cerca de US$ 1 bilhão.
Além do ferro-gusa, outros setores importantes da economia mineira, como máquinas, equipamentos elétricos, joias e alimentos processados, também correm o risco de sofrer com o reajuste.
Sete Lagoas no centro do impacto
O município de Sete Lagoas, um dos principais polos guseiros do país, acompanha a situação com extrema preocupação. Durante a entrega do Hospital Municipal na cidade, o governador em exercício de Minas Gerais, Mateus Simões, enfatizou a vulnerabilidade da região diante do cenário internacional e cobrou uma postura mais técnica e menos política por parte da diplomacia brasileira.
“A gente está em Sete Lagoas, que, dentro do cenário do estado de Minas, foi o município mais atingido — e o setor guseiro, o mais afetado — pela tarifação no ano passado”, declarou o governador.
De acordo com a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), as indústrias mineiras operam sob contratos de longo prazo com as siderúrgicas americanas, o que torna o setor altamente dependente desse mercado e dificulta o escoamento da produção para outros países.
Felipe Ramon, analista de negócios internacionais da Fiemg, explicou ao Diário do Comércio que os reflexos da primeira onda de taxação já vinham sendo sentidos pelas empresas.
“Como o setor não ficou isento desde a primeira vez, os próprios compradores de ferro-gusa diminuíram as compras, e isso já gerou paralisação da produção”, pontuou o analista.
Em nota, a Federação alertou que a nova medida tende a reduzir drasticamente a competitividade dos produtos nacionais, além de diminuir investimentos e postos de trabalho ligados ao comércio exterior. Além do ferro-gusa, outros setores da pauta exportadora — como alimentos processados, joias, dispositivos elétricos e maquinários — correm o risco de ter suas alíquotas elevadas para os mesmos 35%.O peso das exportações mineiras (dados de 2025)
Os Estados Unidos consolidaram-se como o segundo principal destino das exportações de Minas Gerais em 2025, movimentando bilhões de dólares. Veja abaixo os principais parceiros comerciais do estado e como a nova tarifa pode impactar os produtos que lideram o comércio com o mercado americano:
Principais mercados exportadores de Minas Gerais (2025):
China: US$ 16,06 bilhões;
Estados Unidos: US$ 4,29 bilhões (9,36% do total exportado pelo estado);
Alemanha: US$ 1,99 bilhão;
Argentina: US$ 1,94 bilhão;
Canadá: US$ 1,84 bilhão.
Governador cobra atuação do Itamaraty e critica politização
Mateus Simões ponderou que a taxa ainda não foi efetivamente instituída, tratando-se, no momento, de uma recomendação técnica dentro do governo americano. No entanto, o governador em exercício cobrou uma postura firme e ágil do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) para reverter o cenário por vias diplomáticas, criticando a forma como o governo federal conduziu os primeiros embates tarifários em 2025.
“Desta vez, é hora de respirar fundo e mandar os nossos representantes do Itamaraty para conversarem com o governo americano, darem os esclarecimentos necessários para a gente evitar a aplicação dessas taxas”, cobrou Simões.
Ele também teceu críticas à polarização política em torno de um tema que afeta diretamente os trabalhadores mineiros:
“Me incomoda muito que isso seja tratado como um assunto de ‘lulistas versus bolsonaristas’. Desculpa, quem é prejudicado com isso não é nem o Lula, nem o Bolsonaro. Quem é prejudicado com isso é a população de Minas Gerais, aqui do nosso entorno, que depende da indústria do gusa.”
Histórico de socorro financeiro estadual
A preocupação do governo mineiro em proteger os empregos da região de Sete Lagoas tem justificativa financeira recente. Em decorrência das barreiras impostas em 2025, o estado precisou injetar cerca de R$ 200 milhões para oferecer suporte tributário e compensar as perdas das indústrias afetadas.
Segundo Simões, o setor de ferro-gusa de Sete Lagoas foi o único a absorver esses créditos, utilizando mais de R$ 100 milhões do montante disponibilizado. O chefe do Executivo em exercício destacou que, embora o estado esteja pronto para acompanhar e defender o setor, os recursos públicos são limitados, e uma nova crise exigiria verbas que fariam falta em outras áreas essenciais.
Fonte: Setelagoas.com













