Estresse crônico: uma crise silenciosa
Na rotina do motoboy Frank Jesus, 43, o estresse é uma das poucas certezas. “Tenho andado bastante nervoso. Trabalhando no trânsito, então! Não é brincadeira”, relata, dizendo que até faz atividades físicas na tentativa de aliviar a carga. “Mas tem dias que são piores que os outros, e nem os exercícios resolvem muito”, observa. Para o taxista Maurício Marquezine, 62, a situação não é muito diferente. “Tem carro demais na pista”, queixa-se, dizendo que o trabalho tem sido sua principal fonte de irritação. “E, sinceramente, não faço nada para relaxar, não. Eu só faço trabalhar. Quem tem contas para pagar não tem outra saída, não é?”, argumenta.
Das ruas, sobre quatro ou duas rodas, para o interior dos lares, o dia a dia estressante continua sendo uma realidade. É o que indica a história de Isaura Castro, 44. “Tenho andado com os nervos abalados e irritada”, confessa a dona de casa, inteirando que o trabalho manual, com artesanato, tem contribuído para que ela volte ao eixo. No caso da faxineira Eliana Pereira, a situação é ainda pior. Questionada se se sente estressada, reage de pronto: “Nossa Senhora! Estou, e muito. Até passaram remédio para eu tomar”, reconhece, dizendo que vem enfrentando dificuldades para dormir e que lhe tem faltado disposição para dar conta das tarefas de sua rotina. “Hoje mesmo, faltei ao trabalho. Mas, amanhã, tenho que ir”, expõe. No caso dela, a moradia em uma região com histórico de alagamentos em época de chuva ajuda a entender o agravado quadro de estresse. “Agora, que eu saí da (região de) enchente, acho que vou ficar mais calma”, alivia-se.
Em maior ou menor escala, é sensível como o relato de cada um desses personagens, ouvidos pela reportagem enquanto circulavam pela área central de Belo Horizonte, reforça a ideia de que problemas relacionados ao estresse são quase onipresentes na rotina dos brasileiros.
Essa percepção corrobora apontamentos da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR). Conforme a entidade, 72% da população que está no mercado de trabalho sofre com estresse. Um índice tão alarmante que coloca o país em segundo lugar no ranking de territórios com maior número de pessoas afetadas pela síndrome de burnout – distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema resultante de situações de trabalho desgastante. Ainda de acordo com a Isma-BR, a preocupação financeira – evidenciada nas entrevistas por falas sobre a apreensão pelas “contas a pagar” – é a principal razão de estresse para quase 8 de 10 brasileiros, que se veem assombrados por uma realidade de inflação alta, com o acumulado nos últimos 12 meses acima de dois dígitos, e pela elevada taxa de desemprego e de endividamento das famílias.













