<>

Estalagmite da Gruta Rei do Mato ajuda a revelar a velocidade do aquecimento na América do Sul

26/08/26 - 00:00

Estalagmite da Gruta Rei do Mato ajuda a revelar a velocidade do aquecimento na América do Sul Estalagmite da Gruta Rei do Mato ajuda a revelar a velocidade do aquecimento na América do Sul Estalagmite da Gruta Rei do Mato ajuda a revelar a velocidade do aquecimento na América do Sul

Uma estalagmite retirada do piso da Gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas, permitiu que cientistas reconstruíssem algo que parecia fora de alcance: a temperatura da região central da América do Sul há milhares de anos, no fim da última era glacial. O resultado foi publicado na renomada revista Nature Communications e traz um alerta direto para os dias de hoje.

Um estudo internacional com participação mineira

Intitulado "Rapid warming in South America during the last deglaciation" ("Aquecimento acelerado na América do Sul durante a última deglaciação", em tradução livre), o estudo reúne pesquisadores do Peru, Brasil, Alemanha, Noruega, Estados Unidos e China. Entre os brasileiros está o professor Luiz Eduardo Panisset Travassos, do Departamento de Geografia da PUC Minas, que ficou responsável por monitorar as condições atuais da caverna — etapa fundamental para calibrar o "termômetro natural" usado na pesquisa.

A coordenação do trabalho ficou a cargo da pesquisadora peruana Angela Ampuero, vinculada à Universidade de São Paulo (USP) e ao Instituto Max Planck de Química, na Alemanha. O estudo integra a tese de doutorado de Ampuero na universidade brasileira.

Uma caverna que funciona como arquivo climático

A Gruta Rei do Mato é um Monumento Natural Estadual situado em Sete Lagoas, em plena área de Cerrado, que completa 17 anos de criação nesta segunda-feira, 25 de Agosto.

Para quem visita, suas estalactites e estalagmites são apenas formações rochosas exuberantes. Para a ciência, porém, funcionam como registros históricos do clima.

Estalagmites se formam lentamente, gota a gota, ao longo de milênios: a água da chuva se infiltra no solo, pinga no chão da caverna e deposita carbonato de cálcio, fazendo a estrutura crescer de baixo para cima (o oposto das estalactites, que crescem do teto para baixo). Nesse processo, pequenas gotas de água ficam presas em cavidades microscópicas as chamadas inclusões fluidas preservando, como uma cápsula do tempo, a água exatamente como ela era no momento da formação da rocha.

A estalagmite usada na pesquisa foi encontrada quebrada em 2009, próximo ao final da trilha turística da gruta. Não se sabe exatamente onde ela cresceu originalmente, mas os pesquisadores presumem que tenha se formado perto do ponto em que foi achada. Batizada de REI 7-2, suas camadas guardam um registro contínuo que cobre o período entre 22,5 mil e 9,3 mil anos atrás.

O método: lasers, microscópios e água milenar

Para extrair a temperatura escondida nas gotas presas na rocha, a equipe recorreu a uma técnica de alta precisão chamada microtermometria assistida por nucleação. Com o uso de microscópios especiais e pulsos de laser em laboratório, os cientistas observaram como cada gotícula reagia sob diferentes temperaturas, o que permitiu estimar a temperatura interna da caverna no momento em que cada camada da estalagmite se formou.

A vantagem desse método é medir a temperatura de forma quase direta, sem depender de fórmulas e estimativas indiretas o que reduz bastante a margem de erro em comparação com outras técnicas de reconstrução climática. No total, mais de 850 inclusões fluidas foram analisadas.

O que os dados mostraram

Entre o auge da última era glacial e o início do Holoceno (o período geológico atual), a temperatura na região da caverna subiu cerca de 5,8 °C, passando de uma média de aproximadamente 14,4 °C para 20,1 °C.

Esse aquecimento, porém, não foi constante: ocorreu em etapas, incluindo um recuo de cerca de 0,5 °C durante um episódio conhecido como Reversão Fria Antártica. O ponto mais expressivo foi um salto repentino de 1,4 °C em apenas cerca de dois séculos, há cerca de 13 mil anos.

Essas oscilações estão relacionadas a mudanças em um grande sistema de correntes do Oceano Atlântico, a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC), responsável por redistribuir calor entre os hemisférios e influenciar diretamente o regime de chuvas e monções na América do Sul.

O alerta para o presente

Este é o principal recado do estudo: mesmo o salto de temperatura mais rápido registrado na estalagmite aquele de 13 mil anos atrás foi mais lento do que o aquecimento observado atualmente.

Desde 1980, a região de Sete Lagoas tem esquentado a um ritmo médio de 0,32 °C por década, enquanto a maior velocidade de aquecimento natural identificada no fim da era glacial foi de cerca de 0,12 °C por década.

Ou seja, o ritmo atual de aquecimento é cerca de duas vezes e meia mais rápido do que a mudança natural mais acelerada dos últimos milênios impulsionado pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, sobretudo o dióxido de carbono (CO₂).

Segundo os autores, esse dado reforça o quanto a mudança climática provocada pela ação humana é inédita. Como o sistema climático ainda não encontrou um novo ponto de equilíbrio, a expectativa é que o ritmo de aquecimento continue se intensificando nas próximas décadas.

Além de representar um avanço científico publicado em uma das revistas mais respeitadas do mundo, o estudo reforça a importância do patrimônio natural de Minas Gerais: uma caverna aberta à visitação em Sete Lagoas guardava, em uma única estalagmite, parte da história climática de todo o continente e um aviso sobre o futuro que está sendo construído agora.

A pesquisa teve apoio da FAPESP, da FAPERJ, do CNPq, do Conselho Europeu de Pesquisa (ERC) e da Fundação Nacional de Ciências da China (NSFC). O artigo completo pode ser acessado gratuitamente.

Referência: AMPUERO, A., STRÍKIS, N.M., MECKLER, A.N. et al. Rapid warming in South America during the last deglaciation. Nature Communications (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-74093-x

Monumento completa 17 anos

Criada originalmente como Área de Proteção Especial, com 15,8 hectares pertencentes ao município de Sete Lagoas que segue proprietário dessa parte, a área da Gruta Rei do Mato foi elevada à categoria de Monumento Natural pela Lei nº 18.348, de 25 de Agosto de 2009.

Hoje, cerca de 141 hectares estão sob proteção e gestão do Instituto Estadual de Florestas (IEF).

A gruta tem 998 metros de extensão total, dos quais 220 metros estão abertos à visitação. É considerada uma das mais belas cavidades do país e figura entre as 50 maiores cavernas de Minas Gerais, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE).

O nome da gruta tem duas explicações possíveis, ambas ligadas a moradores lendários da região. Uma delas conta que, em meados da década de 1930, um homem alto, loiro e de cabelos e barba longos era visto frequentando a mata e a gruta. A outra fala de um morador diferente magro, moreno, de cabelos curtos, conhecido como Milito Pato, que teria vivido no primeiro salão da caverna. Em ambas as versões, o personagem teria ganhado o apelido de "rei do mato", o que teria inspirado o nome da gruta (texto: Circuito das Grutas).

Programação de aniversário
Para marcar a data, o Monumento preparou uma programação especial para domingo, 30 de Agosto:

8h - Caminhada até a Lagoa
14h - Sessão de cinema
Mais informações: @grutareidomato

Colaboraram com esta reportagem o jornalista Caio Pacheco e o professor Luiz Eduardo Panisset Travassos.

Fonte: Site Sete Lagoas

Veja Mais