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Peça de Sete Lagoas "No Centro da Margem" conquista oito prêmios em festival no Espírito Santo

24/08/26 - 00:00

Peça de Sete Lagoas Peça de Sete Lagoas

O espetáculo "No Centro da Margem", produzido pela companhia Ovorini Carpintaria Cênica, alcançou um marco histórico no 26º Festival de Teatro de Guaçuí. A montagem investiga memórias, o corpo negro e vivências ligadas ao Axé, transformando a periferia existencial em um polo de criação e resistência dentro do teatro brasileiro.

A peça encerrou sua participação no encontro capixaba com uma conquista expressiva: oito premiações que reforçam a relevância de sua pesquisa cênica no cenário nacional. Foram reconhecidas as categorias de Melhor Espetáculo Alternativo, Melhor Dramaturgia, Melhor Atuação, Melhor Direção e Melhor Sonoplastia, além do Júri Popular, do Prêmio Especial do Júri e do cobiçado Prêmio Paulo Honório, concedido por indicação do Grupo Gota Pó e Poeira.

Essas conquistas se somam a uma trajetória consistente de investigação artística voltada ao corpo, à memória e às vivências de um homem preto, gay e ligado às tradições de Axé. Inspirada na ideia de travessia presente na obra de Guimarães Rosa, a montagem propõe uma reflexão sobre os caminhos que um corpo marginalizado precisa criar para existir em espaços que nunca foram pensados para acolhê-lo.

Ao contrário do olhar tradicional que trata a periferia apenas como lugar de carência, "No Centro da Margem" apresenta esse território como solo fértil de resistência, memória e invenção poética. Em cena, referências ancestrais e vivências de terreiro se misturam, borrando os limites entre autobiografia e memória coletiva.

"Os prêmios são importantes, mas representam, principalmente, uma confirmação daquilo que eu já acreditava há anos: este trabalho precisava existir", afirma o ator Alisson Oliveira.

A dramaturgia é assinada por Djaelton Quirino, que transformou memórias pessoais, inquietações e marcas históricas em matéria poética. A direção é de Alex Fabiano, construída a partir de uma escuta atenta e de uma pesquisa coletiva junto à equipe.

Outro eixo importante da obra é o resgate da memória familiar: fragmentos de diálogos e vivências domésticas alimentam a narrativa, ligando a experiência pessoal do artista a questões universais. A espiritualidade também tem papel central — Exu aparece como entidade que rege os caminhos, as encruzilhadas, as ruas e os encontros, sendo essencial tanto para a construção do texto quanto para os rumos do próprio grupo.

Reconhecimento

Para Alisson Oliveira, o sucesso em Guaçuí vai além do reconhecimento técnico e estético. Ele representa a validação política e poética de colocar no centro dos holofotes corpos e histórias que historicamente foram empurrados para as margens.

"Eu penso em quantos caminhos precisaram se abrir para que um homem preto, gay e de Axé pudesse estar no centro da cena contando a própria história. A margem é de onde eu venho, é onde minha memória se guardou, e é de onde eu continuo atravessando", diz Alisson.

Entre os prêmios recebidos, o Paulo Honório — concedido por indicação direta do Grupo Gota Pó e Poeira, anfitrião do festival — teve um significado afetivo especial. A distinção celebra o reconhecimento entre coletivos que compartilham as dificuldades e as conquistas do teatro independente.

"Esse prêmio tem um valor muito particular para mim, porque veio de um grupo que também vive e constrói teatro. É um reconhecimento que nasce do encontro, da generosidade e da possibilidade de um artista valorizar o trabalho do outro", completa o ator, que agradeceu à organização, aos jurados, à equipe técnica e ao público do festival.

Com a sensação de dever cumprido, a equipe de "No Centro da Margem" retoma a estrada sabendo que a caminhada está apenas começando. Para o coletivo, ocupar o centro do palco não apaga as origens — pelo contrário, reafirma que a margem também é espaço de criação, e que o direito de contar a própria história não se negocia.

Fonte: Site Sete Lagoas

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